• Seja Bem-Vindo | Quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O CERRADO E O MARANHÃO


Ao contrário do Piaui, o Maranhão possui uma história secular de significativo desenvolvimento econômico, malgrado tenha exibido crises cíclicas de grande impacto. Ao longo desse período sobressai a inserção internacional de sua produção. Ela remonta ao algodão e mesmo à indústria têxtil no século XIX, cujo epicentro foi a cidade de Caxias.

A produção de soja no território brasileiro é, desde o seu início, emblemática de todas as mutações  relevantes ocorridas na Economia como um todo. Ela projeta, desde meados do século XX até hoje, todos os vínculos macroeconômicos que marcaram a indústria , a agricultura e o comércio exterior do Brasil.

Desde o seu incipiente início, quando estava vinculada ao trigo, a soja foi se tornando uma cultura autônoma, formando um universo tecnológico  próprio no qual o forte apoio governamental esteve presente . Nunca é demais lembrar que a soja foi o produto que no início dos anos 80  carreou, mais que qualquer outro, o capitalismo para o campo. Projeção econômica dos anos do milagre econômico dos anos 70, a expansão da soja foi avassaladora desde então, ostentando modernas tecnologias e contanto com os incentivos de uma política econômica que procurava equilíbrio na balança comercial então afetada pelo petróleo. Seu primeiro avanço foi na região Centro-Oeste.

A soja chegou hoje ao Cerrado  do Maranhão e do Piauí. No seu rastro novas relações sociais  apareceram, antigas foram dissolvidas. As relações com a pequena propriedade , com a agricultura familiar e com outros cultivos foram também fortemente afetadas . No campo da sustentabilidade e da preservação do meio ambiente um novo cenário criou-se com ela, exigindo criatividade e inovação. As mudanças climáticas acrescentam também uma incógnita importante a esse universo daqui para a frente.

A ocupação mais recente de vastas áreas do Cerrado do Maranhão não se inicia com a soja, mas o fato dela repor decisivamente a economia maranhense, juntamente com a mineração, nos canais internacionais de comércio, faz dessa ocupação uma nova economia que se vincula também com a do Piauí ao proporcionar também um mercado interno de derivados da soja, alcançando o Norte do país.
A Ordem dos Economistas do Brasil quer dar aos seus associados e a  seus leitores uma informação desses movimentos recentes, em especial para os leitores que normalmente não acompanham mutações que estão ocorrendo longe do seu dia a dia mas que sensibilizados pela questão da sustentabilidade   necessitam de dados para assumir posições e formular julgamentos adequados sobre essa premente questão que alcança a todos.

A Ordem dos Economistas do Brasil, que já levou recentemente aos seus leitores um panorama do Piauí sobre essa questão, apresenta agora o cerrado maranhense através de parte do trabalho coordenado por Marcelo Sampaio Carneiro. Agradece a Sergio Schlesinger e a Fase Solidadridade e Educação pela facilitação desta publicação.

Estamos à disposição para o eventual atendimento dos leitores que venham a se interessar por outras partes do trabalho.

 

A ECONOMIA DA SOJA NO ESTADO DO MARANHÃO

.1. O PROCESSO DE EXPANSÃO DA PRODUÇÃO SOJÍCOLA


A expansão da sojicultura, enquanto cultivo de larga escala no Maranhão, é um processo de período recente. Remonta a 1978 o primeiro indicador de produção de soja a constar nas estatísticas da Produção Agrícola Municipal do IBGE. Nesses anos foram produzidas 55 toneladas, para uma área
colhida de 32 hectares3. Será nos anos noventa que a produção sojícola ganhará impulso definitivo (Quadro 2), concentrando-se inicialmente na mesorregião sul maranhense, mais precisamente nos municípios de Balsas, Riachão, Tasso Fragoso, S. Raimundo das Mangabeiras e Sambaíba.
Nos últimos anos do século XX, a produção sojícola se consolida no sul do Maranhão e avança para outras regiões do estado, principalmente para o centro4 e o leste maranhense (ver Figura 1).
3 Como mostra o trabalho de PAULA ANDRADE (2007), nesse momento os chamados
gaúchos irão se dedicar à produção de arroz mecanizado no sul do Maranhão. 4 Nessa mesorregião a produção de soja concentra-se nos municípios de Grajaú, Formosa da Serra Negra, Fortuna e Fernando Falcão.

 


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QUADRO 2


EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE SOJA NO MARANHÃO,
SEGUNDO AS PRINCIPAIS MESORREGIÕES (EM TONELADAS)


ANOS Maranhão      Sul        Leste       Centro       Oeste
1990      4.176           4.176                  -                -
1991      8.037           8.037-
1992     24.029        24.029
1993     87.370        86.389 
1995   162.375       162.303 
1996   137.283       137.283 
1997   221.535       221.289 
1998   290.438       290.189
1999   409.012       405.248
2000   454.781       448.359
2001   491.083       482.274
2002   561.718       552.344
2003   660.078       637.289
2004   903.998       863.793
2005   996.909       943.904
2006   931.142       824.759 

Fonte: Produção Agrícola Municipal (IBGE).

 

A expansão para o leste maranhense começou na década de 1990, mas
só se consolidará no final dessa década, como explica o Presidente da Associação
dos Produtores Agrícolas do Cerrado Leste Maranhense (APACEL):
“Eu faço parte de um grupo de agricultores que se deslocaram do Sul no início
dos anos noventa (...). Essa região viveu o primeiro período que foi um período
de muitas dificuldades (...). Isso fez com que boa parte desses agricultores
acabasse voltando pra sua região de origem ou foram para outras regiões.
Mas ficou aqui um grupo expressivo e esse tipo de agricultura ficou em estado
latente até o ano 95, até 98 precisamente, quando finalmente se viabilizou o
plantio de soja aqui na região.” (Entrevista realizada em 12.03.2008)
Enquanto a produção no sul do Maranhão alcança níveis que já justificam
a abertura de unidades de processamento de soja, a expansão recente
da lavoura da soja para o leste maranhense – em 2006 essa mesorregião foi
responsável por 10% do total plantado no Maranhão – fez com que essa
região fosse eleita pela mídia nacional como uma nova fronteira da produção
de soja no Brasil ,
.
5 Cf. matéria “Soja consolida avanço no Nordeste”, http://www.estado.com.br/editorias/
2006/03/26/eco73271.xml.

 


A AGRICULTURA FAMILIAR DA SOJA NA REGIÃO SUL E O MONOCULTIVO NO MARANHÃO
82

Figura 1

MAPA DO ESTADO DO MARANHÃO COM MESO

E MICRORREGIÕES HOMOGÊNEAS

 

 

 

 

potencial esse destacado pelo presidente da APACEL, Vilson Ambrósio,

como correspondendo a cerca de duzentos mil hectares, espalhados pelos

seguintes municípios:

“A área agricultável dessa nova fronteira agrícola, vocacionada para a produção

mecanizada de grãos (soja, milho, arroz) estende-se por 12 municípios:

Chapadinha, Buriti, Anapurus, Mata Roma, Brejo, Santa Quitéria, Milagres,

São Bernardo, Magalhães de Almeida, Urbano Santos, São Benedito do Rio

Preto e Água Doce do Maranhão. Outras áreas na região (incluindo Barreirinhas),

por causa do solo arenoso são incompatíveis com qualquer produção

agrícola”.(http://www.correiodosmunicipios.com.br/Pagina1446.htm)

PARTE 2 A ECONOMIA DA SOJA NO ESTADO DO MARANHÃO

83

No quadro a seguir (Quadro 3) apresentamos os municípios que possuem a

maior área plantada com soja no leste maranhense. Nele destacam-se seis municípios

que integram a microrregião homogênea de Chapadinha (Anapurus,

Brejo, Buriti, Chapadinha, Mata Roma e Milagres do Maranhão) e o município

de Magalhães de Almeida, que faz parte da MRH do Baixo Parnaíba.

 

 

 

QUADRO 3

ÁREA PLANTADA COM SOJA DOS PRINCIPAIS MUNICÍPIOS

PRODUTORES DE SOJA NO LESTE MARANHENSE (2006)

Área Plantada Quantidade Produzida

 

 

 

Municípios             (em hectares)                (em Toneladas)

Anapurus                      4.379                              14.976

Brejo                             7.920                              26.611

Buriti                             7.383                              23.920

Chapadinha                  1.380                                4.306

Mata Roma                   2.670                                8.010

Milagres do Maranhão      950                               3.135

Magalhães de Almeida  1.480                               4.972

Fonte: Produção Agrícola Municipal (IBGE)

 

 

Por força do ritmo dessa expansão, a soja in natura figura entre os

principais produtos exportados pelo estado do Maranhão, ficando atrás

apenas de três commodities minerais (ferro-gusa, minério de ferro e alumínio),

respondendo em média por 14% do valor anual das exportações estaduais

nos últimos nove anos.

No Gráfico 1 e no quadro 4, apresentamos as informações da Secretaria

de Comércio Exterior (SECEX) para as exportações de soja. Nesse período, de

1999 a 2007, o valor das exportações quase quadruplica, saindo de US$ 65,4

milhões (em 1999) para US$ 235,16 milhões (em 2007). No que concerne à

quantidade exportada, a evolução é menor, passando de 358.728,4 toneladas

(em 1999) para 841.943,6 (em 2007).

Vale ressaltar o aparecimento recente na pauta de exportações de outros

produtos do complexo soja, caso da semente de soja e do bagaço de soja.

A presença deste último na pauta de exportação ocorre somente em 2007 –

com 123.318 toneladas – o que explica a redução do volume de vendas de

soja in natura de 2006 para 2007.

No gráfico 2, indicamos os principais exportadores de soja presentes no

estado do Maranhão, segundo a ordem de grandeza do volume e valor exportado

para o ano de 2007. Destaca-se nesse ranking a forte presença de duas

A AGRICULTURA FAMILIAR DA SOJA NA REGIÃO SUL E O MONOCULTIVO NO MARANHÃO

84

multinacionais, caso da Cargill Agrícola S/A e Bunge Alimentos S/A, controlando

61% do valor total exportado; de joint ventures como a Multigrain6

(Multigrain S/A e Multigrain Comércio, Exportação e Importação), e de empresas

nacionais como a ABC INCO S/A (do grupo Algar), CEAGRO

Agronegócios, Fazenda Parnaíba S/A, SLC Agrícola S/A e Weisul Agrícola Ltda.).

 

 

GRÁFICO 1

EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES DE SOJA DO MARANHÃO

QUANTIDADE E VALOR – 1999 A 2007

GRÁFICO 2

PRINCIPAIS EMPRESAS EXPORTADORAS DO COMPLEXO SOJA

MARANHÃO, 2007


6 Segundo matéria do jornal Valor Econômico (31.08.2006), a Multigrain S/A é uma joint

venture formada pela trading brasileira Multigrain e pela cooperativa norte-americana CHS em

agosto de 2006 (cf. http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/agronegocios.html).

 

 

 

 

 

A Secretaria do Comércio Exterior não informa o destino das exportações

estaduais por produto, de forma que não temos como saber para onde

o conjunto da soja produzida no Maranhão é exportada. Entretanto, a

partir do levantamento do destino da produção exportada pelo município

de Balsas, podemos inferir o mercado consumidor da soja (e derivados)

exportada. Para o período de 2004 a 2007, a Ásia e a União Européia se

alternam na condição de principal região de destino, com grande destaque

para as importações chinesas (Quadro 4).

 

 

 

 

 

QUADRO 4

PRINCIPAIS REGIÕES E PAÍSES IMPORTADORES DA SOJA

PRODUZIDA NO MUNICÍPIO DE BALSAS – 2004 A 2007

 

 

 

 

(PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL)

                            2004          2005        2006           2007

Ásia                    72,99           62,56     17,61          61,74

China*               14,38            59,67     15,84          59,91

União Européia 21,34 35,72 81,75 36,51

Mercosul 0,40 0,06 0,40 0,77

Estados Unidos 0,00 1,31 0,00 0,52

Demais Blocos 5,27 0,35 0,24 0,46

(*) As importações chinesas estão incluídas no total da Ásia.

Segundo o presidente da APACEL a soja plantada no leste maranhense

também tem o mercado interno como destino, com o envio de cerca de

20% do total produzido para a indústria de farelo e de óleo localizada no

estado Ceará7.

 

 

“É ali que tá o segredo, o objetivo nosso, inclusive da região, de tentar

atrair a indústria voltada ao mercado interno, porque nós não temos problema,

nós não viemos aqui pra exportar, nós viemos aqui pra produzir.

O Nordeste, com os seus quarenta ou cinqüenta milhões de habitantes, é

ávido por proteína. Proteína animal, principalmente. Então, a parte do mercado

interno é toda ela... nós temos vinte por cento hoje de nossas vendas

de soja, nós... isso no mercado interno.” (Entrevista com Vilson Ambrósio,

realizada em 12.03.2008)

 

 

 

7 Segundo matéria publicada pelo jornal Gazeta Mercantil (Ceará começa a primeira

colheita da safra de soja irrigada, 24/07/2003) somente 32 empresas associadas à

Associação Cearense de Avicultura Aceav) consomem anualmente 300 mil toneladas de

milho e 180 mil toneladas de soja (grão e farelo). A soja consumida é adquirida

principalmente nos estados do Piauí e Maranhão.


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